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Os castells e a arte de recomeçar

Nos tempos em que passei em Barcelona, a manifestação cultural que mais me chamou atenção foram os castells, “castelos” em catalão, que são construções de torres humanas realizadas coletivamente por grupos de castellers. A princípio, o que impressiona é a dimensão visual da prática: dezenas de pessoas se organizam umas sobre as outras, formando estruturas humanas que podem alcançar vários metros de altura, enquanto crianças ocupam os níveis superiores da torre.

A tradição dos castells tem origem no final do século XVIII, na região de Valls, na Catalunha, a partir da evolução de antigas danças populares que incorporavam pequenas construções humanas. Ao longo do século XIX, a prática se consolidou e se espalhou por diferentes localidades catalãs, tornando-se parte das festas populares e da vida comunitária. Depois de um período de declínio durante boa parte do século XX, os castells passaram por um processo de recuperação e expansão a partir das décadas de 1980 e 1990. Em 2010, a tradição foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, em reconhecimento ao seu caráter comunitário, à transmissão intergeracional e aos valores de solidariedade e cooperação que envolvem sua prática.

Um castell é organizado em diferentes partes, cada uma com uma função específica. Na base está a pinya, formada por dezenas ou centenas de pessoas que oferecem sustentação e segurança à torre. Sobre ela se erguem os demais níveis, compostos por grupos cada vez menores de castellers, até chegar ao topo. A parte superior é formada por crianças, mais leves e ágeis, que constituem o pom de dalt e culminam com o enxaneta, responsável por completar a construção ao levantar o braço no ponto mais alto. A altura e a complexidade dos castells são determinadas pela combinação entre o número de pessoas em cada nível e a quantidade de andares alcançados.

Um exemplo dessa complexidade pode ser visto no vídeo abaixo, que registra os Castellers de Vilafranca realizando um 4 de 10 amb folre i manilles (4de10fm): uma construção de quatro pessoas em cada nível e dez andares de altura, reforçada pelo folre e pelas manilles. É uma das formações mais difíceis dos castells e evidencia a dimensão do trabalho coletivo necessário para erguer e sustentar uma torre dessa altura:

As construções podem assumir diferentes formatos. Há castells de três, quatro, cinco ou mais pessoas por nível, além de estruturas mais estreitas, como os pilars, formados por uma única pessoa em cada andar. Entre as construções mais complexas estão as de nove e dez andares, que exigem grande número de participantes e elevado grau de coordenação. Também existem configurações em que duas ou mais torres são erguidas simultaneamente. A combinação entre altura, largura e dificuldade técnica define o grau de complexidade de cada construção, fazendo de cada apresentação o resultado de um cuidadoso trabalho de preparação, equilíbrio e confiança entre os castellers.

Em Girona, todos os anos, no dia de Tots Sants (Dia de Todos os Santos), celebrado em 1º de novembro, durante as tradicionais Fires de Sant Narcís, festa popular dedicada ao padroeiro da cidade, os Marrecs de Salt — grupo de castellers da vizinha cidade de Salt — realizam uma das tradições mais emblemáticas do calendário casteller: a subida de um pilar de quatre, uma torre vertical formada por quatro pessoas, pelos 90 degraus da escadaria da Catedral de Girona. A mesma escadaria também ganhou fama internacional ao aparecer na sexta temporada da série Game of Thrones, ambientada em parte no centro histórico da cidade. A construção precisa vencer cerca de 15 metros de desnível e uma inclinação de 19 graus, exigindo equilíbrio, força e coordenação.

Em 1º de novembro de 2025, porém, o pilar caiu durante a subida, diante da escadaria lotada de espectadores. Naquele ano, a tradição tinha ainda um significado especial, pois, além de marcar as comemorações dos 30 anos dos Marrecs, previa, pela primeira vez, a entrada do pilar na catedral após a conclusão do percurso. A cena a seguir registra integralmente a tentativa, desde a preparação até o momento da queda e, posteriormente, a entrada na Catedral de Girona:

Na mesma celebração, a porta da Catedral de Girona recebeu uma apresentação especial de Els Amics de les Arts, um dos grupos mais conhecidos da música popular contemporânea catalã, acompanhados pelo Cor Geriona, grupo coral de referência em Girona. O registro a seguir mostra a apresentação realizada naquela noite, com a participação conjunta dos dois grupos na interpretação de Louisiana, durante a celebração dos 30 anos dos Marrecs de Salt:

Foi a partir do episódio da queda do pilar que os músicos encontraram inspiração para uma nova canção. Como relataram, ela nasceu do silêncio que tomou conta da escadaria, da expressão de decepção do jovem que sustentava o pilar e, sobretudo, da reação das pessoas ao seu redor, que o ampararam, o incentivaram a se levantar e a tentar novamente. Em 9 de setembro de 2026, Els Amics de les Arts lançaram o videoclipe de Encara som aquí (“Ainda estamos aqui”), inspirado naquela cena da queda do pilar na escadaria da Catedral de Girona:

Talvez seja por isso que os castells tenham me marcado tanto. Durante minha passagem pela Catalunha, acompanhei de perto essa combinação de esforço, confiança e persistência que envolve cada construção. Em algum momento, essa imagem acabou se encontrando com a minha própria trajetória. Na minha primeira tentativa de fazer o doutorado, fui desligado do programa. Foi preciso recomeçar, e nesse processo contei com o suporte de muita gente para reorganizar o caminho e seguir em frente. Quando penso hoje nos castells, talvez seja apenas inevitável lembrar que nem toda queda interrompe uma construção. Encara som aquí: ainda estamos aqui.

Doutorando em Comunicação, Cultura e Amazônia pela UFPA, com pesquisa na interface entre Jornalismo, Ecologia Política e Comunicação, dedicada às narrativas jornalísticas sobre conflitos e desastres socioambientais, neoextrativismo e zonas de sacrifício na Amazônia e na Catalunha. Mestre em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido pelo NAEA/UFPA e bacharel em Jornalismo e Direito. Realizou estágio doutoral na Universitat Autònoma de Barcelona (UAB), com bolsa PDSE/CAPES.

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