Acaba de ser publicado o mais recente número da Revista Organicom, periódico científico da ECA/USP dedicado à comunicação organizacional, relações públicas e aos debates contemporâneos sobre mídia e sociedade. A edição traz o dossiê “Comunicação, Emergência Climática e Amazônia”, que reúne pesquisas voltadas a compreender como a comunicação se inscreve nas crises socioambientais do nosso tempo. É nesse contexto que publiquei, em coautoria com Laiza Mangas e Rosane Steinbrenner, o artigo “Jornalismo socioambiental em meio às disputas narrativas e resistências ecoterritoriais: uma proposta conceitual”.
O texto se insere no esforço de compreender como diferentes práticas jornalísticas atuam — ou falham — na mediação de conflitos socioambientais, especialmente em territórios marcados por desigualdades históricas e por projetos econômicos de alta capacidade destrutiva.
O que investigamos
Partimos de uma revisão crítica de pesquisas acadêmicas recentes que analisam coberturas jornalísticas sobre desastres e conflitos socioambientais. A partir desse mapeamento, buscamos identificar padrões narrativos, ausências sistemáticas e as estratégias de resistência presentes nas vozes dos territórios.
A discussão é atravessada pela ecologia política, pelos debates sobre justiça ambiental e por estudos que tensionam os limites do jornalismo tradicional na representação dos conflitos amazônicos.
Principais achados
- Observamos que a cobertura convencional tende a centralizar instituições, autoridades e dados técnicos, silenciando atores sociais diretamente afetados.
- Muitas narrativas reforçam enquadramentos de “tragédia natural”, deslocando responsabilidades e invisibilizando disputas políticas e econômicas.
- Em contrapartida, mídias independentes e iniciativas comunitárias têm contribuído para reposicionar o jornalismo, ampliando a escuta de povos e comunidades e valorizando epistemologias situadas nos territórios.
- O artigo sistematiza esses movimentos e propõe um modelo conceitual de jornalismo socioambiental que articula escuta, territorialidade e compromisso com justiça socioecológica.
Por que importa
Em um contexto de emergência climática e intensificação dos conflitos ambientais, pensar o jornalismo a partir das resistências ecoterritoriais é uma necessidade ética e política. O estudo mostra que ampliar a pluralidade de vozes, reconhecer as assimetrias de poder e compreender os territórios como sujeitos de conhecimento são passos fundamentais para renovar as práticas jornalísticas.
Nosso objetivo é contribuir para um campo que ainda está em construção, oferecendo bases analíticas que ajudem a fortalecer narrativas comprometidas com a vida — humana e não humana — e com o direito à autodeterminação dos povos amazônicos.
📖 O artigo completo está disponível no volume 48 da Revista Organicom (ECA/USP):

