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Desastre da mineração em Barcarena, Pará e cobertura midiática: diferenças de duração e direcionamentos de escuta

Os desastres socioambientais causados pela mineração não são eventos isolados, mas processos prolongados que afetam comunidades por anos. No caso do desastre da Hydro Alunorte em Barcarena (PA), em 2018, a cobertura midiática teve um papel central na construção da narrativa pública sobre o ocorrido. No entanto, enquanto os impactos desse crime ambiental persistem até hoje, a mídia tratou o caso de forma pontual e concentrada, relegando as vozes das comunidades atingidas a um papel secundário.

Foi essa discrepância entre a duração do desastre e a duração da cobertura midiática que analisamos no artigo “Desastre da mineração em Barcarena, Pará e cobertura midiática: diferenças de duração e direcionamentos de escuta, publicado na Reciis – Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em Saúde (Fiocruz), volume 14, número 2, abril-junho de 2020 (Dossiê Comunicação e Meio Ambiente).

O estudo é uma parceria minha com Rosane Albino Steinbrenner, Guilherme Guerreiro Neto e Edna Maria Ramos de Castro e se insere no dossiê “Comunicação e Meio Ambiente”.

📌 O que investigamos no artigo?

A pesquisa analisou 1.322 notícias publicadas sobre o desastre ao longo de oito meses para compreender:
🔹 A visibilidade midiática do caso e sua queda progressiva após os primeiros meses;
🔹 A hierarquia das fontes jornalísticas, evidenciando o protagonismo de vozes institucionais (governo, empresas, especialistas) e a escassa presença de comunidades e movimentos sociais;
🔹 A perspectiva decolonial, destacando como a mídia reproduz colonialidades ao invisibilizar grupos historicamente marginalizados.

Os resultados mostraram que, embora o desastre tenha impactos prolongados e contínuos, sua cobertura foi episódica e concentrada nos primeiros meses, deixando de lado os desdobramentos ambientais, sociais e políticos do caso. Além disso, apenas 26% das reportagens ouviram diretamente as comunidades atingidas, enquanto o restante privilegiou fontes empresariais e governamentais.

🌱 Por que essa pesquisa é importante?

A cobertura midiática não apenas informa, mas também constrói narrativas sobre os desastres ambientais e suas consequências. Quando a mídia prioriza as versões empresariais e institucionais, ignora os impactos prolongados sobre comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas. Nossa pesquisa busca revelar como a comunicação pode contribuir para processos de injustiça ambiental e para a manutenção da impunidade das mineradoras.

📖 O artigo completo está disponível na Reciis/Fiocruz e pode ser acessado online! Se você se interessa por comunicação, meio ambiente e justiça socioambiental, vale a pena conferir!

Jornalista e doutorando em Comunicação (PPGCom/UFPA), com mestrado em Planejamento do Desenvolvimento (NAEA/UFPA). Servidor do MPPA desde 2008, atua na Assessoria de Comunicação Social. Pesquisa a interseção entre comunicação, sustentabilidade, direitos humanos e conflitos socioambientais, com enfoque crítico e decolonial.